terça-feira, 26 de abril de 2011

Se...

E se o 25 de Abril não tivesse acontecido e ainda tivéssemos um partido único, a União Nacional, dirigido autoritariamente por uma quarta geração de ultra-conservadores?

E se as colónias não tivessem sido abandonadas e todos os homens válidos (e alguns ligeiramente inválidos) fizessem mais de três anos de serviço militar obrigatório, dois deles no meio do mato de uma Província Ultramarina?

E se a Igreja continuasse a ser a religião oficial e não existisse o divórcio e os casais não casados não tivessem quaisquer direitos?

E se existisse a censura e não se pudessem ver certos filmes, ler determinados livros e aceder livremente à Internet?

E se estivesse em vigor o Condicionamento Industrial e ninguém pudesse fabricar nada sem autorização superior, para evitar concorrência excessiva?

E se as leis do trabalho fixassem o valor dos salários, impedissem a greve e considerassem como políticos quaisquer protestos trabalhistas?

E se a PIDE/DGS prendesse arbitrariamente quem lhe apetecesse, invadisse a casa das pessoas de madrugada e torturasse os presos políticos, chegando mesmo a bater-lhes no tribunal à frente dos juízes?

E se os opositores políticos pudessem ser condenados a longas penas de prisão em condições abjectas, confinados a residência fixa ou deportados para as colónias, expulsos para o estrangeiro ou privados da nacionalidade?

E se os funcionários públicos tivessem de ser católicos praticantes e tivessem de assinar um juramento de que não pertenciam a partidos subversivos ou organizações secretas?

E se os passaportes fossem condicionados e só válidos para meia dúzia de países?

E se o analfabetismo fosse prevalecente e a assistência social tão deficiente que só os pobres a ela recorressem?

E se o acesso ao ensino superior fosse condicionado económica e politicamente?

E se as profissões tivessem condicionamentos especiais, como as enfermeiras, que não podiam ser casadas?

E se as mulheres precisassem de autorização do marido para se deslocar ao estrangeiro?

E se os filhos de uma mulher tivessem de ser obrigatoriamente registados como filhos do marido e se mantivesse a classificação de filho ilegítimo?

E se os trabalhadores tivessem de pertencer a sindicatos controlados pelo partido único?

E se as eleições fossem raras, a oposição limitada em todos os direitos, as listas manipuladas e os resultados aldrabados?

E se o Presidente da República fosse eleito por um colégio eleitoral constituído por elementos da confiança do Governo?

E se eu não pudesse escrever isto e você não pudesse ler?
 
 
(PERPLEXO)

7 comentários:

  1. Eu fui revistado pela PIDE.
    Tinha 6 meses de idade!
    Até a fralda me tiraram e desmontaram o meu berço...
    :(

    As pessoas esquecessem-se... ainda sou do tempo em que as aulas só tinham rapazes, as raparigas estavam do outro lado da escola (havia um muro a dividir) e os intervalos eram a horas diferentes para não haver sequer conversas por cima do muro.

    Quando entrava não aula tinha de me curvar respeitosamente para a cruz de cristo e apara os retratos do Marcelo Caetano e do Américo Tomaz.... Isto para além de ter de orar religiosamente antes de começar a aula...

    A memória portuguesa é muito curta...

    Abraço

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  2. Sendo eu um estudante de história e gostando particularmente deste periodo não gostei particularmente da posição assumida aqui.

    Sim, muitas verdades estão aí, mas sem dúvida que havia algumas compensações.

    No entanto nem sequer era nascido nessa altura por isso abstenho-me de comentar no que toca a estarmos "melhor" ou "pior".

    (não sou salazarista nem apoio regimes totalitários)

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  3. Pois... mas eu nasci nesse mundo, e não me esqueço!
    Não me esqueço de ver o meu pai quando tinha amigos em casa a ir bater à porta do vizinho para ver se ele estava em casa, a ir às janelas para ver se alguém estava a ouvir as conversas..
    Não não me esqueço da carga policial da polícia de choque que eu vi, e eu já vivi algumas depois do 25 de Abril, não se comparam...
    Não não me esqueço do analfabetismo e atraso nacional da altura.
    Não não me esqueço da merda que me ensinavam na escola.
    Não não me esqueço das reguadas que levei porque me baldava à missa. Foram as únicas reguadas que eu levei, porque na escola sempre fui bom aluno.

    E já agora friso:
    NÃO PERTENÇO AO PCP NEM AO BE!
    Aliás detesto a postura deles na política!

    E quando escrevo alguma coisa estou sempre identificado, nunca aparece "anónimo".

    Nuno Amado

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  4. Já agora mais duas notas...
    Não gosto da palavra "anónimo" neste tipo de assuntos, por que foi um anónimo que tentou incriminar o meu pai.

    E sim Crucios... depois de escrever isto serias torturado até dizeres o que eles queriam ouvir, mesmo que não tivesses nada para dizer...

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  5. XD não era suposto aparecer anónimo, pensei que estava logged In no blogger :(!

    Pois eu percebo o que queres dizer Bongop, e dou-te razão porque viveste nessa altura, mas já muitas vezes fui precipitado a julgar algo que não presenciei aprendi a dar o benefício da dúvida a tudo e todos.
    Sim, eu sei de muitos factos da época Salazarista em Portugal, mas nada como vivenciar para perceber e isso eu não fiz!

    E não eu também não pertenço ao PCP nem ao BE, apesar de me identificar com alguns ideais base também são muitas as coisas que não aprecio.

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  6. David
    Faz falta a muito jovens ter vivido debaixo de um regime daqueles... só um bocadinho!
    :P
    Logo no vestuário veriam a diferença... calças de ganga???
    ahahahhahhahahah

    Eras logo marginalizado!
    :D

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Ekos

 
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